segunda-feira, 10 de maio de 2010

Teatro dos vampiros.




Eu prefiro 910 facas cortando o vento gelado
atravessando o meu rosto
A ouvir palavras familiares na boca de outra pessoa.
Nunca precisei sair do chão para me fazer presente
Nem receber olhares piedantes
Muito menos chorar por 24 horas seguidas.
Mas agora não importa mais.
Todas as frases ditas não tem efeito algum
Quando o assunto é o outono frio entre quatro paredes metálicas.
Um ato que se repete
Cada vez que a noite chega
E me cega.
Não sinto raiva
Sinto tristeza.
Me deixa entrar nesse labirinto.
O lençol já saiu do colchão faz tempo
E nem está no varal mais.
Eu levo ele para levantar voo comigo.
Minha saída
É esperar.

sábado, 24 de abril de 2010

Minha Saudade.





Um dia
Eu, criança curiosa e atenta,
Me deparei com aquele mar molhando os meus pés.
Não vim do sertão
Nunca trabalhei no sol
O calor nunca foi um inferno pra mim.
Mas quando vi aquele mar
Vi os olhos de Deus.
Um dia
Eu, menina assustada e sonhadora,
Brinquei na areia, o sol queimou minha pele
Me lavei naquele mar.
Joguei fios do meu cabelo
Como colares para Iemanjá.
Um dia,
Eu, mulher madura e insatisfeita,
Vou adormecer naquele mar
As ondas atravessarão meu corpo
E o frio congelará a minha alma.
O céu cantará uma canção de ninar
E num infinito marinho
Na busca pelo meu amor
Pela minha poesia.
Eu ficarei em paz.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Quimera






Trabalha
Trabalha
Trabalha
Tenta fugir de vontades sonhadoras
Esquece os dias que virão
Não conte nos dedos das mãos
Tudo isso faz sentido?

Espera
Espera o coração se acalmar
Tudo está fora do lugar
Controle? Felicidade?

Explica
Explica pra mim
Que poder é esse que me domina?
Você cruzou a minha linha
E agora não quer mais sair.

Fala
Fala o que eu quero ouvir
Não me preocupo em pensar
Não há nada errado em sentir.

Longe
Longe de mim sofrer
Você sabe o que fazer?
Será que eu devo ir?

Ama
Ama
Não tentarei mais nada
No final das contas, a dúvida mata.
Eu quero amar mesmo assim.

domingo, 4 de abril de 2010

Milagre diário.




Não sei até que ponto posso me apaixonar várias vezes, todos os dias.
Você colocou aquela música para tocar
e fez das minhas costas, sua obra de arte.
Até quando minha risada ecoará por esse céu concreto?
Sinto que a cada feriado eu me vejo mais livre
para viver minhas ideologias.
Sei também que minha visão de infinito
está internamente ligada
a meus medos e amores.
Seria tudo diferente?
Acho que estou no lugar certo.
Assim como espero estar a cada primavera.
e minha risada sempre será assim,
insatisfeita,
e apaixonada.

domingo, 14 de março de 2010

Volta Seca





Era noite clara de inverno quente no sertão esquecido de minha memória.
Porém eu escutei o nome forte, as grades manchadas, o barulho de chave...
tive que ir até lá.
Fui embora de chinelos e voltei com os pés menores e amarrados em couro grosso
Ao ver você pequena de tranças feias e vestido rasgado...
não era possível, não era.
Era.
Era difícil admitir que aquela magreza carregava meu nome insoletrável, era feita de parte de mim.
Quando deixei o sertão eu não olhei pra trás para o sol não cegar a pouca visão que ele tinha me tirado.
E agora eu tenho que carregar esse pedaço de gente comigo, essa pele quente e maldita.
O sertão é amaldiçoado.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Antes e depois.


Alguma vez você já se apaixonou cedo demais?

Cansada de ler livros com títulos de aprendiz

Você se apega a contos infantis

E chora ao ler uma frase feita de açúcar.

Alguma vez você já foi interrompida no meio de um poema?

E quando voltou, percebeu que a caneta estava fora do lugar?

Cansei de usar o mesmo caderno

Me desvencilho de passados rimados

E choro por não saber o que falar.

Alguma vez você esperou sentada?

E depois de contar todas as letras de todos os cartazes da estação

Cansou de se sentir trocada?

Aquela vez, eu chorei abandonada.

Quando chegará a sua vez?

Alguma vez você pensou em mim antes de dormir?

Certa vez...

Eu olhei para o céu de uma cidadezinha pequena

Fazia calor dentro da fantasia de carnaval.

Você viu meu sorriso por trás da máscara.

E chorei, por me sentir feliz.

Certa vez.



sábado, 23 de janeiro de 2010

Não é tarde.



Um dia
Eu contarei todas as minhas opiniões
Sem precisar levantar a voz.
Estarei deitada, suada, jovem.
E contarei tudo ao pé do seu ouvido.
Você dirá: “Eu não concordo”
E eu falarei: “Eu sei, querido.”
Um dia
Você irá descobrir todas as minhas aflições
Sem eu precisar te falar.
Estaremos mais velhos, sentados, cansados.
Descobrirá após um almoço em dia de semana.
Você dirá: “Eu não sabia disso.”
E eu falarei: “Você sempre soube, querido.”

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Os meus 20 anos.


Ler Clarice Lispector um dia antes de completar 20 anos não é bom. Por ela ser a rainha da epifania e minha ídola maior, sou capaz de arrumar as minhas coisas e andar até fundir meu cérebro de tantos pensamentos contraditórios. Eu levo em consideração cada frase forte e desconcertante dela e garanto que hoje não é um dia bom para isso.
Ao mesmo tempo, esquecer que existem seres lá fora e mergulhar nesse mundinho “eu e o livro, o livro e eu” me faz entender o motivo pelo qual eu sou assim aos 20 anos.
Não me imaginava nem aqui e nem assim com essa idade. Não com essa ruga nova nos meus olhos que já são bem míopes.
O fato é que meus 19 anos serão lembrados como os “anos nostálgicos”. Um período em que eu mais lembrei do que vivi. No entanto, eles me prepararam para encarar os 20.
Clarice não ficaria feliz comigo...justamente pq eu vou aceitar a nova idade sem aquela paixão juvenil que esse número proporciona para muita gente.
Se pudesse, me desdobraria em 4 pedaços para comemorar mais esse ano. Com o primeiro pedaço eu atravessaria uma ponte e me jogaria no mar como uma criança. Com o segundo, eu vestiria um uniforme preto e branco e comeria tortas de verão. Com o terceiro, provavelmente escutaria música na calçada mais larga da cidade...e com o quarto, eu me trancaria no armário com os meus desejos.
Como eu sou só um pedaço de 20 anos, eu simplesmente aceito a graça de poder ler minha Clarice.
E para mim, isso já é muito.

sábado, 10 de outubro de 2009

Antologia primaveril



Ela chegou medrosa e sonhadora na capital. Pensou confusa: “Liberdade? Necessidade absurda e prazerosa de ser livre, de andar, de correr, de amar nessa paulicéia louca.” Pensou em tudo isso e andou até qualquer lugar.

Acordada, ela espera no ponto de ônibus, percebe certas peculiaridades enquanto a água cai discreta, nasce um girassol quando a paz se instaura.

Depois de um tempo, queria voltar para casa. Cadê o sol? Sentia falta do sol sem brisa.

É madrugada.

De repente, ela vê os sete mares em forma de sorriso. Ela acreditava em milagres e sabia que o poeta não tem paciência
A mão dela ainda segurava a dele. “Me tira para dançar”, ela disse num sussurro quase inaudível.

E os dois dançavam sem intenção alguma, sabiam que raramente iam sentir essa dança outra vez.
Gostavam de se olhar, para ela, ele parecia um conto inacabado e inteligente, para ele, ela era como se fosse uma canção, a primeira de todas as canções. Os dois não se encontraram na hora exata e assim, tudo tinha mais sentido.

Quando percebeu, a nuca dela pedia os lábios dele e os lençóis não estavam mais no varal. A pureza é alta, mas mesmo assim, os dois machucaram a razão. Ela não usava vestido, colocara a melhor camisola. É a coragem.

Com um abraço fechado, foram amantes direitos e viveram amores esquerdos.

A alvorada nasceu e só restaram as tulipas.


Brilhantes.

sábado, 22 de agosto de 2009

Pra Sempre.



Sinos, sinais.
Listras horizontais
Paralelamente iluminadas
Refletidas
Em um cetim que nunca foi sujo
Nem lavado.
Dizer, dizer, dizer.
Que necessidade absurda e prazerosa
De ouvir confissões não pensadas.
Pois escuto, prefiro assim.
Te escuto no claro,
Sem abraço, sem risco, com sono.
Não me entrego, nem me apaixono
Me descubro na paz que sempre procurei
Já tenho companhia, meu mar.
Voltei, falei que ia voltar
Para terminar aquilo que comecei.
Agora, prometa, me esfria
Me tira a ansiedade de começar
Arranca o poder divino se eu não tenho a competência para criar
Banha-me. Purificação. Me ama. Sou sua.
Mas não me peça para ser a única.
Ser outra com sonhos pesados
Corpo relaxado
Em alto mar
Te traz de volta pra mim.