quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Esperando na chuva.







Quando amanhece em uma Ilha,
chega a ser contraditório não ver o sol.
Ela esperava no ponto de ônibus todos os dias.
Quando ele a beijava
o guarda chuva abria.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Emergência.


Quando o vidro é sujo
pelas baforadas inquietas
de uma pobreza piedosa,
os olhos abertos
recebem os tapas reais.
A vontade é escutar a história
de cada foto 3X4 encardida.
No poeta,
falta oxigênio na alma.
No povo,
no corpo.
E eu
que achava verdades ruins nas esquinas,
vivo em um aquário
que mostra a certeza
das pequenas aflições.
E, apesar de tudo,
acredito em milagres
ao ver sorrisos vazios.

domingo, 19 de outubro de 2008

Doença curada.


Quando recebeu aquele cartão meio pequeno, J. achou tão bonito.
Até que ficara bem na foto. Só não gostou de uma coisa: Era preto e branco e não dava para ver que os olhos eram verdes.
A mulher bonita do balcão usou um carimbo no espaço vazio perto da foto.
"NÃO ALFABETIZADA"
J. não entendeu o motivo do carimbo, mas não importava, ela estava feliz por mostrar que era "oficialmente" alguém.
Casou-se com 16 anos e 11 meses, quase 17.
Queria casar no dia do seu aniversário, mas sua mãe não deixou, casar com 17 anos já era tarde.
Teve 10 filhos, 8 meninas e 2 meninos. Foi bom ter várias meninas, J. tinha um problema sério de asma, precisava de ajuda nos afazeres domésticos.
54 anos depois de receber a identidade, ela marcou uma consulta no hospital público da capital, precisava urgentemente de um pneumologista.
13 horas ela estava na frente do ambulatório.
- Tenho consulta marcada - Ela tinha uma voz rouca, os olhos bem abertos.
Entregou o papel para a menina que estava no balcão.
- Tem a sua identidade, senhora? - A menina disse olhando para o papel amarelo que já fazia parte da rotina.
J. entregou a identidade.
A menina estudava para ser professora de Português, estava no começo da faculdade, um pouco insegura para saber qual o real significado da palavra "educação", apesar de ser tímida, gostava da idéia de poder ensinar, mesmo tendo como alunos só os bonecos na época da infância.
Ela olhou as letras pequenas que representavam um grande problema.
E escreveu o nome "J." em um papel branco e entregou o amarelo à senhora.
- É só esperar no corredor aqui do lado.
2 horas depois, J. passou pelo ambulatório correndo, ia perder o horário da van.
A menina do ambulatório a viu e saiu correndo.
-Senhora! Senhora! Olha só, escrevi o nome da senhora nesse papel. Essa semana, vá fazer uma nova identidade e copie o que está nesse papel na parte que tem um espaço em branco, perto da foto. É o seu nome, sua assinatura.
J. não entendeu muita coisa, não queria uma nova identidade, gostava da sua "atual", da sua foto.
Era uma lembrança da juventude.
- Faça isso - a menina reforçou - a senhora saberá escrever seu nome! Não é bom? Daqui há 1 mês, quando a senhora retornar para uma nova consulta, quero ver uma nova identidade, hein?
E saiu correndo, o movimento do ambulatório era grande naquela época, começo de inverno.
J. fez o que a menina mandou.
Comprou um caderno e um lápis, seu marido estranhou, seus filhos também, ninguém sabia ao certo o que a mãe queria com aqueles materiais.
Nunca precisou de nada daquilo.
Mesmo assim, decidiu tentar.
Se não conseguisse, tudo bem, sua felicidade nunca dependeu do fato de ela saber ou não a ler e escrever.
1 mês depois ela voltou para o hospital, mas a menina do balcão tinha mudado.
O mesmo processo de sempre, entregar o papel amarelo, pedir a identidade e mandar esperar.
Nenhuma observação ou estranheza a respeito do novo cartão.
Antes, olhavam batante para a sua carteira de identidade, ela sempre imaginava que era por causa da foto e se sentia bonita.
J. achou que, sabendo assinar seu nome, poderia se diferenciar das pessoas, chamar a atenção.
Voltou para a casa pensando na menina professora, de como queria encontrá-la, mostrar que realmente aprendeu, ela ia ser a única que ia reconhecer o tamanho do esforço que ela teve para poder desenhar aquelas letras.
Pensou em tudo isso
e chorou ao olhar a foto velha...

domingo, 12 de outubro de 2008

Feliz cidade.



No começo,
você me chamou de medrosa,
disse que minhas lágrimas
não molhariam nem o meio fio da calçada.
Eu, pequena,
preferi aceitar suas ordens.
Até que resolvi encarar
suas feições duras.
E te agradeço por não ter
me deixado aparecer antes.
Você preparou o cenário,
a música,
o tempo.
Sem perceber,
eu tinha uma história.
Eu gosto de te olhar,
de respirar você.
Você me deu um amor de presente.
Sempre que vou,
sempre que volto,
a garoa
sai dos meus olhos.

sábado, 27 de setembro de 2008

Não viver, só recordar.


" O jardim era pequeno, mas a voz humana tem todas as notas, e os dois podiam dizer poemas sem serem ouvidos". Quincas Borba - Machado de Assis.



Comprou um sabonete rosa, na capa, uma figura de uma flor bonita.
"Extrato de Orquídea"
O banheiro era estreito, pequeno e o perfume que saía de cada parte ensaboada dizia que era dia de mudanças.
A marca da mão se arrastando no boxe era só o começo.
Ela pensava muito enquanto a água caía pelo corpo.
Quando ele disse que vinha, a primeira reação foi espantosa. Nunca achou que voltaria, até porque nunca prometera nada.
O que importa é que ele voltou, não para ficar e ela sabia disso, mas ele voltou.
Reencontros se baseiam em dúvidas. É difícil se surpreender com uma mudança a ponto de aceitar esse novo presente? É simples se lembrar de como era, se deixar levar...E fazer acontecer? É cômodo simplesmente esperar o acaso se encarregar de montar uma cena e obter um final incerto, mas feliz?
Ela escolheu se prender as velhas sobrancelhas interpretáveis.
Ele preferiu se surpreender.
Ela revivia o passado ao encontrar aquele que a segurou forte na cintura pela primeira vez
Ele só queria ganhar o beijo maduro daquela que mexia no seu cabelo com uma ternura infantil.
Enquanto ela se trocava, ele reparava no novo lar que ela construiu.
Tudo neutro, incolor, sério.
Ela apareceu com um vestido amarelo, foi aí que ele percebeu que já não conhecia mais aqueles traços antes tão roxos e verdes.
Ela repousou sua mão na dele e o levou até a sacada.
Não tinha lua, mas tinha estrelas.
- Você disse que não ia voltar - os autênticos cabelos femininos caíam nos olhos.
Ele deu a típica risada alta, como se a resposta fosse óbvia.
- Eu estar aqui já te responde. Você mudou tanto. Achei que com essa mudança, o fato de vc nunca ter confiado em mim, também mudaria.
Por que ele fazia aquilo com a sobrancelha? Sabia que a marca das melhores lembranças se limitava aquele gesto tão singular.
- Não quero ir embora.
- Não acredito em você.
Era mentira, claro. Ela sentiu saudades de beijar aquela face lisa, de arrancar a camiseta larga, de puxar os cabelos negros.
- Não é o que o seu cheiro de orquídea diz.
A mão dela ainda segurava a dele.
E elas se arrastavam.

Setembro/2008

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Começou.



Eu poderia fazer um post super adjetivo para a estação que intitula esse blog.
De fato, vontade não me falta.
No entanto, acho que o vento primaveril e as minhas flores queridas já são poemas para mim, sem palavras, sem linguagem, sem escritura.

Espero minha felicidade vir com os encantos de setembro.


Boa primavera para vocês.

Naty Sanches.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Female.



Eu peço carona de calça jeans rasgada
e ando a pé com a mochila pesada.
Meu cabelo é curto,
meus cílios também.
O sol não ilumina meus passos,
ele cega a minha miopia.
Meu suor molha
a caixa registradora
e a literatura
é o banho de todas as noites.
A pureza é alta,
mas a santidade é baixa.
O explícito não tem graça
e a lingerie
não é vermelha.
Eu provo o meu amor
ao arrepiar os cabelos da sua nuca.
A arte de dançar com as pernas
vai além da pista suja.
Meu sono é feio
e a beleza esta nos olhos...
ABERTOS.

sábado, 23 de agosto de 2008

Estrada da vida


Vestiu o vestido que tinha bolsos. Sentiu-se protegida, poderia levar sua casa naqueles bolsos sem utilizar as mãos. Bolso na vestimenta era a prova de que não gostava de chamar atenção.

Foi até o lago, no meio do caminho, encheu os bolsos de pedras.

Nunca ia até lá, o lugar não trazia as melhores recordações. Lembro que foi lá que a vi chorar pela primeira vez.

Com os bolsos cheios e a alma vazia, ela mergulhou.

Ao fechar os olhos, a água abundante era o amante que ela nunca teve. O vestido levantara, suas roupas de baixo mostravam a vontade que ela possuía de ser descoberta.

As mãos dançavam sem intenção alguma, justo ela, que calculava tanto seus gestos...

Os sapatos grossos e pretos não saíram do pé, se o caminho até o paraíso fosse cheio de pedras, ela as chutaria.

E assim, minha amiga se sentiu livre.

Uma vez, perguntei a ela o por quê de nunca soltar os cabelos, eram tão compridos...

Ela afastou os fios dos olhos e respondeu:

- Eles são pesados demais.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Quem é você?



Quem foi você?
Não quero ler seus escritos,
te conhecer pelas linhas estudadas,
admirar suas capas desenhadas
ou ouvir elogios de seus amigos.
Me encontre na escadaria nobre,
deixe-me ver seus olhos curiosos
por trás das lentes famosas.
Desconhecido,
suas amantes não te definem.
Por você,
tento amar intransitivamente.
Posso ser desvairada,
se me mostrar seu caráter.
Mexa seus pés
e me tire para dançar
os primeiros ritmos
que tanto sabes.
Meu moderno cavalheiro,
a paulicéia é louca,
apressada, encantadora.
A lua se esconde
atrás de outra modernidade.
No centro paulistano,
ouço seus passos literários
nas escadas dos meus sonhos.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Busca.



Severina,
não se conforme com a morte,
sai logo desse Norte
e vai viver uma vida.
Encontre Fabiano
do outro lado,
ele está com seus meninos,
calado.
Vai com ele,
que a Vitória
vai logo em seguida.
O Brasil é grande,
mas a fé também é.
A estrada não acabou,
não seja um José.
Aos quinze anos,
a vida tem pressa.
A água cai discreta
e se você não correr,
pode se afogar.
O sonho alimenta,
mas para comer,
é preciso, antes de tudo,
arrumar a mesa.

Agosto/2008